Imagem capa - Sua Mãe Ainda Está com Você?  por Giselle Santos
Ensaio Newborn

Sua Mãe Ainda Está com Você?





Há cinco meses atrás eu recebi aqui no Atelier a Yara e seu bebê Vicente para um ensaio newborn. A Yara, ainda abalada com a morte recente de seu pai que se foi poucos dias antes do nascimento do seu netinho.  Ainda não recuperada da dor da perda recente apesar do ganho e da felicidade imensa de agora ter seu bebê e descobrir um mundo de emoções sem fim! Nos meses que se seguiram, recebi ela mensalmente para os ensaios de acompanhamento, sempre acompanhada da sua mãe. Em um desses encontros ela mencionou a dificuldade que tinha em ficar sozinha, não que fosse incapaz mas porque há momentos e fases da vida que necessitamos muito mais de uma mão amiga, acolhedora e terna para que possamos reencontrar o caminho e reconstruir nossos pedaços. Eu também me acostumei com a presença da "vovó Guiomar" em todos os ensaios. Discreta, doce e muito educada ela também me conquistou. Aos poucos fui vendo a Yara tornar-se mais confiante, aos poucos restabelecendo-se. E hoje, vi esse post  na sua rede social (que compartilho aqui com a devida autorização dela) que tocou-me profundamente e quero compartilhar com vocês. Lembrando que antes de julgar alguém, troque de lugar com ele. Como disse Saramago: "para conhecer as coisas há que dar-lhes a volta, dar-lhes a volta toda".  Os ensaios de acompanhamento ainda continuam mas agora já sabemos que a cada dia a Yara está mais forte, tranquila e com a certeza de que ter uma mão amiga pode sim mudar tudo! 

Segue o texto:


SUA MÃE AINDA ESTÁ COM VOCÊ?

Por Yara Luiza Moreira Braguinia

A falsa e retrógrada ideia de que nós mulheres ao nos tornarmos mães, precisamos dar conta de tudo sozinhas ainda povoa a mente de muitas pessoas. Não tenho problemas com quem pensa dessa forma, mas foi esse o fundamento de perguntas, indiretas e comentários que ouvi nos últimos quase seis meses. Antes do meu filho nascer, recebi a minha mãe na minha casa para se recuperar de uma cirurgia, seriam três dias de repouso absoluto, e eu que esperava cuidar bem direitinho dela, me vi as pressas indo para o hospital logo no dia seguinte daquelas orientações do médico, que ouvi bem atentamente, na esperança de assumir os cuidados dela! A natureza é soberana e mostrou quem manda, me devolveu ao posto de filha rapidinho! Minha bolsa rompeu e eu saí correndo! Ela, recém operada ficou atrás arrumando a casa para receber o bebê e o que seria a minha vida pelos meses a diante. Ela fez a minha mala de maternidade e esboçou o que seria assumir o papel de mãe. Ela deixou de lado a recuperação da cirurgia para cuidar de nós, e me mostrou que eu também seria daquela forma a partir de então. Quando um filho nasce, ficamos em segundo plano (muito felizes, pois se o filho está em primeiro lugar, sentimos que estamos no lugar certo!). Os dias foram passando e eu não pensava, simplesmente cuidava. Aprendi a amamentar e a aceitar que o meu tempo agora seria dele, fui lidando com a privação do sono e o cansaço, fui aprendendo como aconchegar um bebezinho, como falar baixinho com ele, como transmitir o maior amor com uma linguagem que até então eu desconhecia. O tempo foi passando e eu não pensava, apenas agia, copiava e repetia o meu maior modelo, que estava ali comigo. Sei que teria agido bem de qualquer forma, pois a natureza, como já falei, é soberana, mas a realidade é que minha mãe, ali comigo encurtou o caminho, facilitou o processo... É errado isso? Talvez, para quem sofra de vaidade ou autocobrança. É feio ter a mãe assim ajudando em tudo? Talvez, para quem não consiga perceber a energia sublime do amor materno transitando e indo a diante. Sou “menos mãe” que as outras por ter tido essa ajuda e presença? Talvez, para quem precise julgar as escolhas alheias!
Pois aqui dentro está tudo certo! Muitas pessoas que acompanharam esse processo me ajudaram e nem sabem, com palavras de reforço positivo, de entusiasmo com a situação e frases sobre como é bom ter a mãe da gente por perto! Estou em paz e feliz, estou principalmente agradecida, pois lá atrás, quando o futuro me pareceu nebuloso e eu senti medo, minha mãe deu mais uma lição de desprendimento e disse: “Eu fico aqui ao seu lado”! Lá atrás quando a angústia tomava conta do meu corpo e a ambiguidade de sentimentos era assustadora, ela segurou na minha mão e disse: “Filha, fique calma”! Enquanto eu chorava a ausência do meu pai no momento mais mágico da minha vida, ela me falava: “Ei, eu estou aqui com você, tudo vai ficar bem”.
Então hoje, a força e confiança que sinto tem todas as nuances da sua presença. Ninguém nunca poderá imaginar o que foi esse nosso tempo...

Faz quase seis meses que você deixou sua casa, sua cama, sua rotina, para viver a minha, da minha família, comigo, meu marido e meu filho...
Durante esse tempo o cheiro do seu café me trouxe conforto em todas as manhãs, minha fruteira esteve sempre cheia e os meus dias muito melhores. Nesse percurso eu observei e incorporei tudo que pude, como uma esponja num balde d’água. Obrigada meu Deus.
Hoje chegou o momento em que mais uma vez aprendi uma lição de doação, e você se foi mãe... Cuidar de outra filha, em outra cidade, outra casa, outra cama... Em outra realidade tão sedenta de você quanto eu estava há quase seis meses, precisando do seu café, e de todos os seus cuidados. E isso me alegra, me conforta, e principalmente, mais uma vez me ensina! Então eu lhe agradeço de todo o coração e lhe deixo ir, divido essa presença com minhas irmãs, mas sem deixar de dizer que todo o tempo ao seu lado ainda é pouco! Hoje minha casa e minha família estão plenas de amor e gratidão e eu devo mais essa a você. Te amo infinitamente!

E sim, minha mãe ainda está comigo, agora mais do que nunca, ela está em cada beijo que eu dou no Vicente!